Nos poços
"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."
Caio Fernando Abreu.
Para onde correr, não saber nada. "Eu não sei". O corpo esticado sobre o colchão gelado, o cobertor até o pescoço e Mickey apertando-lhe o peito, feito um sonho. Não, não é um sonho. Ali os sonhos já não existiam. E o papel higiênico surrupiado, esmagado, quase triturado pelos dedos cujos nós estavam esbranquiçados. (E o filete de sangue escorrendo devagar, um pinga-gotas no lençol azul). "Eu sou um poço". Escuridão, tempo. "Sou um maldito poço". O punho enforcado começando a arder, manchado. Ela aperta o peito comprimindo o Mickey de algodão. O coração se chocando contra ele -"Sou um poço trancado dentro de um poço sou um poço vazio" - mudo, pedindo para sair.
Dani Vieira
Rio de Janeiro, 09 de Julho de 2008.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
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